sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Mentor de programa contra o crack de SP diz que objetivo não é fim do uso.

Primeiro neurocientista negro a se tornar professor titular da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), Carl Hart, 48, cresceu em um bairro pobre de Miami e foi ele mesmo traficante de maconha por algum tempo.

Hábil com matemática, obteve bolsas por cotas e estudou nas melhores universidades dos Estados Unidos, onde decidiu que que ia "solucionar a dependência de crack". Isso até descobrir que não necessariamente existe uma solução para ela.

"Percebi que a minoria das pessoas que usava drogas se tornava dependente. Então, não dá para culpar a substância pela dependência. Há outros fatores nessa equação, sejam eles focados no indivíduo ou no seu ambiente", explica.

Pesquisas de Hart chegaram a princípios para lidar com a dependência muito semelhantes àqueles utilizados no programa Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo. O principal deles é oferecer alternativas atraentes a usuários de crack, capazes de fazer escolhas racionais.

Segundo o neurocientista, suprir as necessidades básicas dessas pessoas as afasta do pequeno delito e abre espaço para uma vida responsável, mesmo sem eliminar o consumo da droga.

Hart chegou na última quarta (27) ao Brasil para participar na quinta de um seminário do IBCCrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), em São Paulo, e para lançar um artigo na edição de agosto da Revista Internacional de Direitos Humanos, Sur. Ele também se reuniu com o prefeito Fernando Haddad (PT) para saber sobre o andamento do programa.

De acordo com a prefeitura, dos 500 participantes do Braços Abertos, 380 atuam em frentes de trabalho de quatro a cinco dias por semana. "Se essas pessoas estão bem e têm responsabilidade com o trabalho e com a família, é isso o que importa", disse.

Nesta sexta (28), a Folha mostrou que, quatro meses depois de uma ação do poder público para remover a "favelinha", que facilitava a movimentação de traficantes, a situação voltou ao que era antes.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Folha - Como você avalia o programa Braços Abertos e seus resultados?

Carl Hart - Eu tenho muito orgulho deste programa porque ele é muito humano e lida com as necessidades básicas do ser humano: abrigo, alimentação e trabalho para o sustento pessoal e da família. Sei que os críticos dizem que muita gente que faz parte do programa ainda usa drogas. Em muitos casos, quem diz isso também usa drogas como álcool, café, cigarros, mas toca sua vida com responsabilidade. Então, a pergunta não é se eles estão ou não usando drogas, mas se estão aparecendo pra trabalhar e arcando com suas responsabilidades. Essa é a medida do sucesso e aquilo no que deveríamos focar. Se essas pessoas não estiverem nas ruas, cometendo pequenos crimes, é um grande avanço. Se você não tem suas necessidades básicas satisfeitas, é uma escolha racional roubar alguém que parece ter de tudo em abundância. Então, programas como esses fazem com que todos fiquem mais seguros na sociedade.

E os resultados?

Ainda há poucos dados sobre ele até agora, mas o fato de haver gente inscrita no programa é um ótimo sinal porque essas pessoas não estão o tempo todo nas ruas. Há um paralelo entre o Braços Abertos e os programas de heroína feitos a mais de 20 anos na Suíça. Lá, o governo dá duas doses de heroína, todos os dias, para quem se inscrever no programa. Isso quer dizer que duas vezes por dia esse usuário entra numa instalação médica e interage com enfermeiras e agentes de saúde, o que é fantástico. Eles não estão nas ruas o tempo todo e estão sendo acompanhados de alguma maneira.

Há a informação de que, a cada dez pessoas inscritas, seis permanecem no programa e quatro o evadem.

Se há mais gente permanecendo no programa do que abandonando ele, avalio como algo bom. Ainda assim, é prematuro pensar em termos de sucesso ou fracasso com bases nesses números. Eu gostaria de saber por que essas pessoas deixaram o programa. Sei que havia muita gente de fora de São Paulo entre os primeiros beneficiados. Será que voltaram para casa? Será que têm uma vida produtiva hoje? Seria importante saber. Eu, por exemplo, estava num pós-doutorado na Universidade de Yale antes de me tornar professor em Columbia e decidi abandonar o projeto lá. Vi isso acontecer com outros pesquisadores. Podemos dizer, com base nisso, que Yale é um fracasso? Não.

Você diz ter decidido se dedicar à pesquisa de drogas para solucionar o problema da dependência. Há solução?

Sua pergunta é mais sofisticada do que aquelas que eu fazia quando comecei a pesquisar drogas. Na época, eu queria entender o que acontece no cérebro que faz com que alguém queira usar drogas exclusivamente. Acontece que eu descobri que ninguém quer usar drogas o tempo todo. Isso é uma ficção, um personagem. Descobri que uma minoria das pessoas que usava drogas se tornava dependente.

Mesmo no caso do crack?

Com certeza. A substância que mais gera dependência é o tabaco: 33% de quem experimenta, se torna dependente. No caso da heroína, 25%. Crack, 20%. Álcool, cerca de 15%. Maconha, menos de 10%. E foi aí que eu percebi que, se a grande maioria das pessoas não se tornava dependente, a causa da adição não poderia ser apenas a substância. Então, precisa haver explicações focadas em cada indivíduo e no seu ambiente que expliquem melhor a dependência do que as drogas em si. Estudos demonstraram que quem se torna dependente de drogas tem mais chance de manifestar também distúrbios psiquiátricos como depressão, ansiedade e esquizofrenia. Então, é provável que a doença esteja levando à dependência? Que se tratarmos da doença, a dependência vai desaparecer? Em outros casos, a pessoa pode não ter aprendido a ter responsabilidade e a dominar seu comportamento. Em outros, o uso de drogas pode ser a melhor opção que aquela pessoa tem no momento.

Isso explica a dependência mais que efeitos no cérebro?

Muito mais. Mais que qualquer gene que você possa pesquisar. Vários estudos apontaram que as drogas eram muito perigosas porque ratos de laboratório apertavam um botão da jaula que lhes dava uma dose de cocaína até se matarem de overdose. Quando você olha mais de perto, descobre que não havia nada na jaula dele além do tal botão. Se você coloca uma fêmea, uns brinquedos, umas bananas e outras coisas, o rato não usa cocaína até morrer. Isso mostra que se animais tiverem acesso a alternativas, as drogas deixam de ser um problema.

Você fez então estudos com humanos?

Isso. Levei usuários de crack para o laboratório e ofereci a eles, diariamente, uma dose de droga ou uma pequena quantidade de dinheiro, como US$ 5 (R$ 18). Em metade das ocasiões, escolhiam a droga. Na outra metade, o dinheiro. Se não houvesse o dinheiro, eles só teriam a droga para usar todo dia. Quando aumentava a oferta de dinheiro, eles preteriam a droga.

Não seria por que o dinheiro compraria mais do que droga ofertada de graça?

Esse é um bom argumento. Mas essas pessoas estavam morando no laboratório por três semanas. Eles poderiam estar guardando dinheiro para quando fossem para a rua. Se eles estavam guardando para comprar droga, isso ainda demonstra que dependentes de crack podem prorrogar a gratificação do uso da droga e fazer planos de longo prazo, o que contradiz a imagem de incapacitados ou incontroláveis que muita gente tem deles. Mas houve muita gente que pediu que assinássemos um cheque com o dinheiro ganho para o pagamento de certas contas.

Você é a favor de tratamento compulsório?

Não. O fato de a China usar tratamento compulsório deveria nos fazer suspeitar desse tipo de ação. A China nunca foi um exemplo de direitos humanos. Também não acredito em tratamentos que são doutrinação religiosa, por mais que respeite muito a religião. Tratamento é algo que precisa ser desenhado individualmente porque, como falei, há fatores diferentes que podem levar pessoas à dependência. É preciso descobrir porque aquele indivíduo está com problemas com drogas e tratá-lo de acordo. Se for por depressão será diferente do que se for por falta de alternativas de vida.
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