domingo, 11 de outubro de 2015

Carta aberta a Dilma a propósito dos insultos no WhatSApp.

Não começo com Senhora Presidente ou Excelentíssima Senhora ou nenhum vocativo pomposo; começo com esta pessoalidade porque a mensagem que deixo aqui não é para a Presidente da República. É para a Dilma mulher, que você certamente continua sendo independente do cargo que ocupe.

É uma mensagem de solidariedade, como eu gostaria de escrever para cada mulher que sofre ataques sórdidos de preconceito na era das redes sociais – em que tudo parece ser permitido, e a falta de escrúpulos e humanidade é viralizada como se fosse novidade. 

Então, a interlocutora desta mensagem não é a Chefe de Estado, é a minha companheira de luta, como são minhas companheiras de luta as mulheres gordas, magras, brancas, negras, instruídas e não-instruídas. Todas, indistintamente.

Não pretendo adentrar nos seus méritos políticos, mas não devo esquecer-me – como muitos cidadãos brasileiros têm feito – de sua história de luta. Devo lembrar que a senhora foi membro do Comando de Libertação Nacional (COLINA), da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e outras organizações que defendiam a luta armada contra o Regime Militar. 

Que foi presa política durante três anos e foi torturada durante a ditadura. Devo lembrar, portanto, a quem esquecer, que a senhora tem uma história política e humana que merece ser respeitada. A despeito disto, devo lembrar de seus 68 anos de vida. 

É exatamente a idade da minha avó. Então, ainda que não houvesse nos livros de história registros de sua contribuição política no Brasil, eu ainda assim deveria-lhe respeito, porque fui criada e educada para respeitar as pessoas, especialmente as mais velhas.

Acontece que nem todos os brasileiros o foram, e exatamente por isso esta deve ter sido uma semana difícil para a senhora. Confesso que me envergonhei – enquanto cidadã brasileira e enquanto mulher – das ofensas sórdidas dirigidas à senhora, vazadas de um grupo de whatsapp do qual participavam os principais executivos da Andrade Gutierrez.

Adjetivos como “velha gorda”, “sapa” e “cara do satanás” são daqueles que não se pode repetir sem sentir tristeza e vergonha profunda por saber que uma mulher da sua idade – e independente de sua posição, ressalte-se – seja obrigada a ler insultos públicos tão cruéis.

Quero lhe dizer que a crueldade que foi imbutida nestas críticas, em termos tão vergonhosamente chulos, é a mesma crueldade dirigida a muitas de nós, mulheres, todos os dias. Nós, chamadas de gordas, sapas, Satanás, pandoras, putas, vitimistas. Nós, que somos sempre culpadas. A senhora, a despeito de sua posição política, de sua idade e de sua história de vida, não escapou do ódio irracional desta parcela desprezível do povo brasileiro. Sinto muito, mas nenhuma de nós escapa.

Além disso, é justo que saiba que eu e algum quinhão da população brasileira não nos deixamos contaminar pelo ódio que vem se instalando no país. Ainda há pessoas que não lotam estádios de futebol para gritar-lhe palavras de baixo escalão ou a insultam secretamente em grupos na internet.

Mas coexistimos, infelizmente, com uma direita movida pelo ódio, pela sordidez e pela desumanidade; quero avisar-lhe que nós estamos engajados em refutar a esse ódio com uma serenidade inteligente que só pessoas que mantém em suas vida alguma humanidade são capazes.
Estou certa de que percebeu isto, e quero que saiba que percebemos também: o ódio dirigido à senhora nestas conversas vazadas recentemente demonstram que a direita brasileira ainda não sabe lidar com uma mulher em sua posição. 

Xingam-na como se ainda ocupassem carteiras de uma turma de quinta série porque são preconceituosos e inescrupulosos, é verdade, mas especialmente porque não conseguem tratá-la com o mínimo de igualdade. Não conseguem engolir uma mulher na presidência.

Eu nunca ouvi, por exemplo, um presidente – por mais oposição que tenha enfrentado – ser xingado de gordo, ainda que alguns o fossem. Nunca vi a direita brasileira expecular sobre a sexualidade de políticos homens. “Corruptos, salafrários, pilantras” e toda a sorte de ofensas públicas, admito, mas nunca gordos ou gays.

A verdade é que a direita brasileira perdeu o controle. A dificuldade em manter posicionamentos jurássicos combatidos vorazmente por uma parcela cada vez mais politizada da população os tem levado a transparecer, de uma maneira cada vez mais insana, o próprio desrespeito e desumanidade.

Quero dizer, portanto, a esta Dilma mulher, que ela não precisa ser magra ou atraente. Que não deve envergonhar-se dos insultos – vergonhosos, na verdade, para quem os proferiu – e que sua aparência física ou vida particular não precisa estar sujeita à crueldade de uma direita podre. E que mostre a quem ainda não notou – como a mulher forte que sempre foi – que os discursos de ódio não passarão. 

Para que, quem sabe, em algum futuro próximo, a direita brasileira possa perceber que a igualdade é mais que um direito – é a palavra de ordem. E ela não comporta preconceito ou discurso de ódio – nem a mim, nem à Presidente da República e nem a ninguém.

Dilma, nós, mulheres, acreditamos que alguém que venceu a ditadura não pode ser vencida pelo ódio de uma direita inconformada. E enquanto suas companheiras de luta, nós e o feminismo te abraçamos.

Por Nathalí Macedo.
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