domingo, 6 de março de 2016

Uma boa notícia para pais e professores: Aluno bagunceiro pode ser profissional bem-sucedido.

Quem encontra o empresário Marcelo Veneroso, 55, em situações profissionais não imagina que por trás do comprometimento e do extenso currículo que construiu ao longo da sua carreira de sucesso já houve um aluno ‘bagunceiro de carteirinha’. Hoje ele é presidente da Neuman & Esser América do Sul, vice-presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), diretor da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e produtor rural.  
Aquela dose de indisciplina que fez Veneroso ser expulso da sala de aula e levou a mãe dele a procurar um médico para tentar tratar a sua “hiperagitação” (comuns a tantos outro alunos) vem sendo estudada pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Os pesquisadores descobriram que esses comportamentos inadequados sob o ponto de vista do professor e prejudiciais nos estudos, na verdade, ajudam essas mesmas pessoas no mercado de trabalho.  

Orientado pelo professor de economia Nicholas Papageorge, um dos coautores do projeto, o brasileiro Victor Ronda, explica que várias pessoas já haviam explorado a relação entre “mau comportamento” e o mercado de trabalho, mas no novo estudo eles deram um passo adiante, separando o “mau comportamento” na escola em dois componentes distintos: um ligado à depressão (comportamento internalizante) e o outro ligado à agressividade (comportamento externalizante).  “Ao fazermos isso, descobrimos uma relação positiva entre o comportamento externalizante aos 11 anos e os salários dessas mesmas pessoas aos 33 anos”, afirma Victor Ronda. Os dados usados na análise norte-americana são de um estudo inglês (National Childhood Development Study – NCDS) que segue 18 mil crianças nascidas em 1958 no Reino Unido.  Virando o jogo. No caso do empresário Richard Lowenthal, 40, a dificuldade nos estudos sempre foi atribuída a sua falta de atenção. 

“Sempre foi traumático passar de ano. Nunca repeti, mas era um dos piores da classe. Inclusive, no dia da formatura do ensino médio, eu era o único fazendo prova de recuperação”, lembra o CEO.  Essas marcas, que fizeram os pais de Lowenthal desacreditarem a sua capacidade de concluir os estudos, hoje são muito bem trabalhadas por ele. Tanto é que ele se uniu a um ex-bagunceiro, e, juntos, quem diria, fundaram a Febracorp University, que oferece cursos na área de negócios. “Foi fundamental ter vivido essa experiência, porque, hoje, quando estamos testando qualquer experimento de aula, eu sou a cobaia. 

Se eu consigo manter a atenção ligada e não me distraio é porque a aula está boa”, brinca.  Toda criatividade, espírito empreendedor e influência na opinião dos colegas, que muitas vezes são vistos como indisciplina, de acordo com a psicóloga e coordenadora de consultoria educacional do Sistema Ari de Sá, em São Paulo, Karine Moreira, certamente não devem ser considerados um problema natural, mas é preciso ser entendido e investigado.  “Esse comportamento pode denunciar dificuldades no processo pedagógico e até uma incoerência entre o discurso da escola e o da família. 

Cabe ao professor perceber as potencialidades de cada um dos alunos para que a indisciplina não atrapalhe o rendimento da sala como um todo. Essas características que são preponderantes, se não forem bem canalizadas, podem tender para o lado oposto, mas é preciso deixar definidos alguns papéis: a escola escolariza e a família educa”, diz Karine.  É o perfil ou só uma fase bagunceira?  Apesar de admitir que sua característica “bagunceira”, de certa forma, tenha dado mais desenvoltura no mercado de trabalho, Marcelo Veneroso reconhece que com os filhos a cobrança também acontece. “Não sou um pai inibidor por completo, mas fico preocupado com foco”, afirma.  

Para a psicóloga Karine Moreira, é preciso perceber a diferença entre uma fase e um perfil bagunceiro. “Deve verificar se a criança é danada quando pode ser danada, mas entende que existem regras e hora para tudo”, diz.   Contexto social é muito importante para ‘reviravolta’  O contexto social, o suporte familiar e o acesso a oportunidades favorecem a superação dos prejuízos da fase bagunceira. Porém, os estudiosos da Universidade Johns Hopkins dizem que esse retorno positivo do comportamento externalizante no mercado de trabalho desaparece quando se trata de crianças de famílias de baixa renda.  

O coautor do estudo, Victor Ronda, destaca ainda a inexistência dos “benefícios” da agressividade durante o período escolar. “Na verdade, crianças com altos níveis de comportamento externalizante tendem a atingir menores níveis de escolaridade se comparadas a outras crianças com o mesmo nível cognitivo”, afirma.  Por isso, na continuação do trabalho os pesquisadores estão explorando essa heterogeneidade. Além disso, há uma questão racial polêmica no estudo. 

Os resultados preliminares apontam que o retorno do comportamento externalizante é negativo para crianças negras, mas não para crianças brancas.  “Uma possível explicação que a gente encontra nos dados é que as crianças negras que se comportam mal na escola tendem a ser punidas com suspensões, enquanto as brancas recebem tratamento médico. Essas crianças negras, com alto nível de mau comportamento, também têm um maior risco de se envolverem com a criminalidade. Como consequência, o retorno do mau comportamento no mercado de trabalho acaba sendo negativo para essas crianças”, afirma Ronda.
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