terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aluna da rede pública é aprovada em 1º em curso mais concorrido da melhor universidade do Brasil

“A meritocracia é uma falácia. Eu consegui porque tive ajuda. Não dá para igualar as pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Eu me esforcei muito, sim, mas não consegui só por causa disso, eu tive apoio. E é isso que a gente tem que dar para quem não tem oportunidade. A gente perde muitos gênios por aí, inclusive nas favelas porque não podem estudar”. 
Bruna Sena

Uma estudante de escola pública de Ribeirão Preto alcançou a nota mais alta da Fuvest  no curso mais concorrido do vestibular 2017 da Universidade de São Paulo (USP): o de medicina no campus de Ribeirão Preto. Bruna Sena, de 17 anos, estudou a vida inteira na rede pública e superou 6,8 mil candidatos que disputaram as 90 vagas de graduação, ficando em 1° lugar.


A assessoria de imprensa da USP em Ribeirão Preto (SP) confirmou a colocação da candidata. Com a aprovação, ela se tornou a primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior.  Um artigo publicado no site da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto  (FMRP) menciona o primeiro lugar de Bruna.  

A concorrência para o curso de medicina na USP Ribeirão foi de  75,58 candidatos por vaga, uma disputa que tem se tornado cada ano mais acirrada, depois que a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto aderiu parcialmente ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Há dois anos, a concorrência foi de 50,51 candidatos por vaga.  

De família pobre, Bruna dedicou quase todos os seus dias no ano passado para se preparar para essa disputa: pela manhã, ela cursou o terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual Alberto Santos Dumont, localizada no Sumarezinho, bairro de classe média de Ribeirão Preto. Durante a tarde, estudava sozinha. 

À noite, frequentava diariamente o cursinho popular PET-Medicina, iniciativa dos estudantes de medicina da  USP na cidade, que dão aulas voluntariamente a estudantes de baixa renda.  Desde o início do ensino médio, Bruna tinha como objetivo passar na Fuvest, mas ela diz que se surpreendeu ao descobrir que conseguiu alcançar o sonho na primeira tentativa. 

Ela participou do Inclusp, o programa de inclusão social da USP, que oferece pontuação extra para estudantes da rede pública.  A iniciativa tem como objetivo incentivar que mais estudantes de escolas públicas se inscrevam na Fuvest, e ampliar a diversidade entre os estudantes de graduação. Em 2016, de todos os calouros matriculados na USP, 57,7% eram homens, 76,4% eram brancos e 63,3% tinham feito todo o ensino médio em uma escola particular. 

Bruna representa a minoria nos três casos.  “Não foi fácil, mas eu tive ajuda de muita gente. Minha mãe me ajudou, minha família e também o meu cursinho popular. Foi por isso que eu obtive a minha aprovação, além do meu esforço”, afirma a mais nova caloura da USP.  

Incentivo à inclusão Pelo Inclusp, a estudante recebeu bônus tanto na primeira fase, que tem uma prova de 90 questões de múltipla escolha, e foi aplicada em novembro, quanto na segunda fase, onde os candidatos enfrentam três dias de provas com questões dissertativas, incluindo uma redação.  

“Tive pontuação acrescida tanto na primeira quanto na segunda fase. Na verdade eu não me lembro como fiquei sabendo, mas acho que foi porque fui pesquisando mesmo porque eu sempre quis a USP, tanto que fiz a Fuvest no segundo ano e no terceiro [do ensino médio] e por isso tive um acréscimo”, explica Bruna.  

Desde 2014, a USP dá bônus de 15% na nota final para todos os alunos que fizeram o ensino fundamental todo na rede pública, e fazem ou estão fazendo o ensino médio em escolas públicas (no caso de quem só fez o ensino médio na rede pública, o bônus é de 12%). 

Para isso, é preciso ter no mínimo 27 acertos na primeira fase. Candidatos que participam também do Programa de Avaliação Seriada (Pasusp) têm direito a 20% de bônus: nesse caso, é preciso ter cursado o ensino fundamental na rede pública e ainda estar cursando o ensino médio em escola pública, além de fazer a Fuvest em dois anos seguidos, no segundo e no terceiro do ensino médio. 

Já os candidatos pretos, pardos e indígenas que cursaram ensino fundamental e médio em escola pública recebem ainda 5% de bônus adicional (neste caso, o bônus pode chegar a um teto de 25%).
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