sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Você nunca foi uma reles primeira-dama, nunca foi recatada, nem do lar, porque seu lar sempre foi onde as transformações encontraram lugar. Por Marília Sampaio, via Facebook.

Você nasceu em uma família humilde, é a décima dentre 15 irmãos. Você teve que começar a trabalhar cedo, como babá aos 9 anos, quando toda criança deveria estar brincando. Aos 13 você já é operária, trabalha numa fábrica de chocolates. 

Com 20 anos de idade você vai trabalhar em uma escola, dando aulas, se casa, forma uma família. Parece que a vida finalmente começa, mas seu esposo morre assassinado quando você está com 4 meses de gravidez. 

Aos 20 e poucos anos você é viúva, mãe solo (e nesse tempo se falava "mãe solteira", com todo o estigma que essa expressão carrega) e bom, você resiste porque tem que seguir a vida. Cruza o seu caminho um rapaz barbudo que trabalha num sindicato e que também é viúvo e veja, ele interessou por você (esse rapaz além de ter perdido a esposa, perdeu também o filho, imagina). 

Você resiste o quanto pode, afinal você já tinha casado uma vez, já tinha um filho, você já até tinha um outro namoradinho, você queria paz, mas o rapaz foi insistente e bem, te convenceu. Te ganhou. Outra família. Outro casamento. 

Dessa vez será pra sempre, você acredita. Nove meses e nove dias depois do seu segundo casamento, nasce seu segundo filho. Você, que recebeu uma educação machista, queria mais da vida além do lar e da maternidade: queria dar aulas, ter uma profissão, fazer cursos, fazer coisas, mas enfim, a vida acabou seguindo seu roteiro próprio e você teve que abandonar seu trabalho para cuidar dos filhos e da casa. 

Mal imaginava você que você faria muito, muito mais que qualquer profissão ofereceria. Era 1975, o auge da ditadura militar e seu marido, o barbudo insistente se tornou um líder do sindicato dos metalúrgicos, no ABC Paulista, o maior pólo automobilístico do país então. E o país lutava por democracia. 

Você e seu marido começavam a escrever a história que mudaria para sempre o Brasil. Você era recém-casada e abriu seu lar para a resistência, sua casa se tornou o próprio sindicato quando os mesmos foram tomados pela ditadura. 

Sua sala virou uma trincheira de luta. Qualquer pessoa comum recuaria, buscaria seus próprios interesses, reivindicaria a casa e o marido para si, o pai dos seus filhos pra eles, mas você sempre soube que o que estava em jogo era maior que sua vida particular: estava em jogo um Brasil melhor para todos. E todAs. 

Você também organizava as mulheres: brigando por maior participação feminina nos sindicatos (isso muito antes do partido que ajudaria a fundar futuramente, ser o primeiro a ter paridade de gênero em sua direção). 

Você acabou sendo mãe e pai, você ia para as reuniões sozinha e quando seus filhos tinham saudade do pai, você o mostrava na Tv, liderando 60 mil pessoas numa assembleia. Não foi fácil, mas o que é, afinal? Você organizou em plena década de 80, uma passeata de mulheres /mães de operários/ sindicalistas presos, cercada por tropas repressivas da policia militar. 

Em uma época que levantar cartazes pela democracia dava cadeia, tortura e até morte. Você não fraquejou, você se agigantou quando foi acordada aos berros e metralhadoras por toda parte: prenderam seu amor, prenderam o pai dos seus filhos. Você não sabia pra onde o levaram. 

Pra piorar, sua sogra, já acometida de um câncer agonizava. Você a viu morrer quando seu marido era um preso politico. Você teve que explicar aos seus filhos pequenos que papai não era bandido, o que é democracia, o que é lutar por uma ideologia. Você resistiu. Você resistiu pra ver a saída dele da prisão, fruto da mobilização do país inteiro. 

Você viu seu marido, o barbudo insistente se tornar um líder, um mito e você gestou com ele a criação de um partido único, um partido que fosse dos trabalhadores. Você ouviu ele dizer que não ia entrar em nenhum dos que existia, porque o país precisava de um partido que fosse do povo e para o povo. 

Em vez de achar loucura, em vez de você pedir pra ele ficar em casa, você pegou um tecido vermelho que tinha guardado, costurou uma estrela branca e fez com suas próprias mãos a primeira bandeira do que viria a ser o maior partido de esquerda da América Latina. 

Sua casa, que nunca foi mesmo só sua e dos seus filhos, a partir dali jamais seria mesmo. Seu lar foi o útero que gestou todas as mudanças que o Brasil viveria nas próximas décadas. E seu marido, deixaria de ser só o seu amor, para vir a ser o maior presidente que a República Federativa do Brasil já conheceu. 

Sua história nunca foi só sua e resgatar tudo isso é necessário porque "a memória é um pedaço do futuro". Quando você foi à Brasilia a primeira vez e viu de perto o poder e seus palácios você teve medo, você falou “vamos parar com tudo isso: esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. 

Eles não vão largar isso aqui jamais. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida...” e sem saber, você estava certa de alguma forma. Seu marido chegou ao poder, mas de fato eles não largaram “isso” jamais. Você suportou em todos esses anos os ataques a ele, a você, a sua família. 

Você aguentou todos os xingamentos, todas as denuncias caluniosas, todas as capas de revistas que chafurdaram a vida intima de vocês: que acusava seu filho de bens que ele nunca possuiu, de ser dono do que nunca foi. Você viveu cercada de abutres que se dizem jornalistas, que exploravam a sua dor e que muitas vezes riram do câncer do seu marido. 

Você aguentou o ódio de quem nunca suportou ter perdido o poder para um operário, que nunca conseguiu ver gente pobre e preta nas universidades, com emprego, com renda, com direitos. Você suportou isso de cabeça erguida. E você nunca quis holofote, nunca bancou a assistencialista, você sempre soube do seu papel nessa história e esse papel nunca foi de coadjuvante, como sempre querem dar a nós mulheres. 

Você nunca foi uma reles primeira-dama, você sempre foi a companheira, você sempre esteve ao lado e não atrás.. Nunca foi recatada, nem do lar, porque seu lar sempre foi onde as transformações encontraram lugar. Depois de viver tudo isso, com 66 anos de idade você é acometida de um AVC hemorrágico. 

Seu marido precisa de você, os tempos não são fáceis, te acusam de ter um tríplex, seu país sofreu um golpe de Estado. Tempos sombrios. Você adoece. Você fica inconsciente. Você não sabe mas as pessoas na internet torcem por sua morte, riem da sua doença, saem de suas casas para levantar cartazes, mas dessa vez não pedem democracia, pedem novamente a prisão do seu marido, não respeitam a dor dele, que pode perder a segunda esposa, seu segundo amor. 

Amor de 43 anos. Você tá em coma, você não sabe nada do que se passa lá fora. Ainda bem. A sua hemorragia cerebral te poupou de presenciar as cenas que comprovam que a humanidade faliu e você, que ajudou a “Esperança vencer o medo” em 2002 não presencia a pseudo vitória do ódio em 2017. Você finalmente pode descansar. 

A morte nesse caso é um descanso pra quem lutou a vida inteira. De quem tem a história como testemunha, de quem encerra sua trajetória de mãos limpas, de quem usou suas mãos para fechar em punho e resistir, ao contrário de muitos dos que ficam e que te acusam, que as usaram para agredir e bater panelas motivados unicamente pelo ódio. Sabemos que era ódio agora, onde só resta o silêncio. 

Nenhuma panela mais ecoa. Como você sentiu e avisou, eles nunca iam deixar mesmo. Mas não foi o ódio deles que venceu, você só descansou. Finalmente descansou. Descanse em paz. 

(Pra nós que ficamos, muito estômago e força). Por Marília Sampaio, via Facebook.
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