sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Dispositivo patenteado na UFRN permite melhorar treinamento de alunos na área da saúde

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) recebeu neste mês de outubro o registro do patenteamento de uma nova invenção na área da saúde. Fomentado no âmbito do Departamento de Medicina Integrada, a nova tecnologia recebeu o nome de Dispositivo ajustável ao corpo e personalizável para treinamento em manejo de feridas e foi desenvolvida com o objetivo de facilitar o ensino e avaliação no manejo de ferimentos em geral.  

“Seja um ferimento agudo, como visto em um acidente doméstico, um produzido por acidente de trabalho, um resultante de violência ou um resultante de acidente com animais peçonhentos, seja um ferimento crônico, como os observados em pacientes acamados ou em pessoas com diabetes, que evolui para feridas de difícil cicatrização, as chamadas úlceras: em todos esses casos, ele é ajustável ao corpo e permite o ensino e a avaliação de habilidades de comunicação e atitudinais, as quais são imprescindíveis para qualquer profissional de saúde diante destes atendimentos”, explica o professor José Luiz de Souza Neto.  

O equipamento é composto por duas regiões: a região de suporte, responsável pela fixação do dispositivo ao corpo do usuário, e uma de treinamento, na qual será executado o treinamento propriamente dito. A primeira possui uma camada superficial que pode ser constituída de silicone, enquanto a segunda é composta de camadas que ‘imitam’ as equivalentes ao corpo. Nesse caso, a camada superficial pode ser produzida em silicone, ao passo que a inferior é constituída por materiais que simulam o tecido subcutâneo. Há também um reservatório de paredes deformáveis conectado aos tubos de látex e que gera fluxo de líquido com corante, ‘copiando’ o fluxo de sangue.  

“Posso dizer, com certa tranquilidade, que todos nós, em algum dia, já fomos atendidos por termos sofrido algum tipo de ferimento. São lesões que podem ser muito simples ou graves ao ponto de colocar a vida em risco, isso a depender do caso, do agente causador, por exemplo. Dessa forma, existe uma grande variedade de possibilidades que necessitam de alguns cuidados específicos. Reproduzir cada uma dessas possibilidades não é tarefa fácil, por vezes se tem de recorrer a algumas maquiagens de ‘efeitos especiais’ para simular os ferimentos ou utilizar alguns produtos comercialmente disponíveis que são normalmente caros e limitados ou de uso inconveniente por serem difíceis de vestir e retirar”, coloca o docente.

O cientista identifica ainda que o invento permite a customização do ferimento a partir de um kit, situação que permite uma grande variedade de possibilidades, conforme os objetivos de aprendizagem da aula ou do treinamento. Além disso, a montagem é bastante simples, podendo ser feita por uma faixa de “velcro” ou superfície aderente, conforme o caso. A partir daí, José Luiz pontua aspectos a respeito da aplicação e das facilidades do novo invento.

“Ele pode ser utilizado em atividades de ensino e treinamento na área da saúde ou até mesmo em treinamentos e capacitações militares em cenários realísticos, nos quais são necessárias aquisições de habilidades psicomotoras, de habilidades e atitudes diante de um paciente vítima de um ferimento de qualquer natureza. Por ser adaptável, o dispositivo, a partir de sua montagem prática, possui versatilidade para ser utilizado em uma grande variedade de treinamentos, sendo ajustado e retirado com facilidade do corpo do paciente simulado”, frisa.

A invenção é resultado direto das necessidades observadas em sala de aula e surge a partir de uma “dobradinha” acadêmica com o também docente George Dantas de Azevedo, da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM). O uso do equipamento já acontece recorrentemente no Laboratório de Habilidades Clínicas do Centro de Ciências da Saúde (CCS), em aulas que envolvem atendimento a urgências e emergências, especificamente nas disciplinas de Urgência e Emergência e na disciplina de Habilidades Básicas de Urgência e Emergência do Adulto. Inclusive, a partir desse uso, outros dispositivos estão sendo desenvolvidos baseados nas experiências, o que coloca em evidência os feedbacks dos alunos e professores que usam o equipamento.

“Eu desenvolvi diversos protótipos com este princípio. Podemos usar feridas infectadas e com secreção, feridas limpas e até mesmo ferimentos traumáticos com sangramento ativo quando o aluno os manipula, tudo em nome de uma experiência realística e significativa para o processo de ensino-aprendizagem e que seja de montagem prática, pois, em algumas situações, precisamos preparar mais de um cenário, momento da aula prática em que se realiza uma dramatização, com mais de um tipo de ferimento”, coloca José Luiz. É a segunda concessão de patente com sua participação. Na anterior, ele já havia mostrado uma gama de conhecimentos em uma tecnologia similar à atual.

“A universidade é o local vocacionado para a inovação. Deve ser um celeiro em que as boas ideias vêm ao mundo para resolverem os problemas das pessoas. As ideias que temos todos os dias podem estar resolvendo sérios problemas ao nosso redor, devemos ter a sensibilidade de perceber isso e protegermos estas ‘soluções mágicas’. Seja para resolver um problema, para ajudar as pessoas, para salvar uma vida ou para dar maior produtividade, as soluções podem até parecer um pouco óbvias após alguém apontar, mas identificar primeiro, destacar e proteger essas soluções é algo com que o ambiente acadêmico deve se preocupar. Não temos ainda esta cultura em nosso país, mas é algo que precisamos ensinar aos nossos alunos. A independência tecnológica é tão significativa para um país quanto a sua independência política. Devemos lembrar que a ciência deve produzir riqueza para o povo que a cultua. Quem tem a patente de uma inovação tem a preferência neste processo natural”, defende o cientista.



 

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