sábado, 13 de novembro de 2021

Tradução de cartas do século 17 resgata a história do RN

A Real Biblioteca de Haia, na Holanda, guarda importantes registros da história do Rio Grande do Norte durante o período colonial, no século 17. São seis cartas escritas em tupi e trocadas entre os Potiguara, que habitavam a porção Leste do Nordeste brasileiro, mais especificamente, o RN e a Paraíba.  Dentre as cartas, estão escritos de Felipe Camarão, um dos principais personagens do período colonial do Estado. 

O material foi inteiramente traduzido e revela, pela primeira vez, parte da nossa história narrada pelos próprios indígenas. As traduções foram feitas pelo professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Navarro. Os escritos em tupi se dão no contexto da invasão dos holandeses ao litoral do Nordeste, que começou pelo Estado de Pernambuco, no ano de 1630. A invasão foi organizada pela Companhia das Índias Ocidentais, a quem pertenciam os arquivos.  

As cartas foram escritas no âmbito dos dois mais importantes massacres religiosos da história do Rio Grande do Norte: entre agosto e outubro de 1645. Em julho daquele ano, fiéis católicos foram mortos por holandeses em Cunhaú, na cidade de Canguaretama, e em outubro, outro massacre foi registrado, desta vez no distrito de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante.  

O professor da USP explica que os escritos revelam um descontentamento de Felipe Camarão com a perda da cultura de seu povo em meio aos conflitos entre portugueses e holandeses pelo domínio do litoral brasileiro. “Felipe Camarão diz, em uma de suas cartas, que não queria perder as tradições de seu pai. Ele revela que, enquanto os holandeses capturados em conflito tinham a vida preservada para servirem de moeda de troca, os indígenas eram mortos”, relata Navarro.  

O conflito dividiu os Potiguara, ou, Camarões, como eram conhecidos. Parte deles passou a lutar ao lado dos portugueses, como era o caso de Felipe Camarão, enquanto outros decidiram seguir os holandeses, no conflito que ficou conhecido como Insurreição Pernambucana. A Insurreição começou em 1645 e tinha como objetivo a expulsão dos holandeses dessa região do País.  

Além de Felipe Camarão, os escritos foram redigidos pelo capitão Simão Soares, da Paraíba, Diego da Costa e Diogo Pinheiro Camarão, que redigiu duas cartas. Pedro Poti, Antônio Paraupaba, Gaspar Cararu, Pedro Valadina, Jandaia e Baltazar Araberana foram os receptores.  

“Na carta, Felipe Camarão pede ao primo Pedro Poti que deixe os holandeses e vá para o lado dos portugueses. Todos seriam perdoados e levados para viverem segundo as tradições dos Potiguara, segundo disse Felipe Camarão a Pedro Poti”, descreve o professor da USP.  

Navarro afirma também que Felipe Camarão conta detalhes sobre a morte de generais em batalhas e acrescenta: “Na carta, ele [Felipe Camarão] diz algo como: ‘se esses que estiverem com você não quiserem morrer, eles que fujam’”, relata.

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